Sargento Nélia Ferreira, assistente social: "Alguns têm problema social na família, outro tem um quadro de estresse laboral, às vezes é uma dificuldade financeira que lhe tira o equilíbrio emocional, por vezes o paciente está comprometido por alguma doença que talvez nem tenha sido diagnosticada. Uma série de fatores que podem provocar esse quadro de desequilíbrio e cujo socorro nós levamos a ele”

Por Hélmiton Prateado

A Associação dos Subtenentes e Sargentos da Polícia Militar e Bombeiros Militares (Assego) criou no ano passado um serviço de apoio social, psicológico e terapêutico para atender seus associados que está sendo chamada de “celeiro dos anjos que socorrem os guerreiros”. O núcleo batizado como CRAP – Centro de Referência em Apoio Psicossocial atende policiais e bombeiros militares da ativa ou inativos, pensionistas e seus dependentes que necessitam de apoio social e psicológico. 

Presidente da Assego, subtenente Luís Cláudio acompanha pessoalmente o trabalho da equipe do CRAP

De acordo com o presidente da Assego, subtenente Luís Cláudio Coelho, o objetivo é zelar pelo equilíbrio psicológico, emocional e social dos indivíduos que são a primeira linha de defesa da sociedade. “Nós, policiais militares e bombeiros atuamos em uma das profissões mais estressantes da história e o escopo principal desse trabalho é garantir a humanização do indivíduo fardado que precisa de manter o seu norte”, explica. 

À frente do trabalho há um triunvirato de mulheres puxado por duas guerreiras vestidas de fadas. A sargento Nélia Ferreira é assistente social e é ladeada pela sargento Ana Paula, psicóloga. Elas atendem têm uma rotina média de 200 atendimentos todos os meses desde que o serviço foi lançado e comandam um grupamento multidisciplinar que socorre as demandas que não param de crescer.

“Nossa ação começa com um tratamento diferenciado feito por uma acolhedora que tria a extensão da demanda trazida pelo associado e seu encaminhamento para o serviço social e para a área de psicologia”, explica a sargento Nélia. A assistente social observa que cada policial tem uma demanda social diferente e com várias origens. “Alguns têm problema social na família, outro tem um quadro de estresse laboral, às vezes é uma dificuldade financeira que lhe tira o equilíbrio emocional, por vezes o paciente está comprometido por alguma doença que talvez nem tenha sido diagnosticada. Uma série de fatores que podem provocar esse quadro de desequilíbrio e cujo socorro nós levamos a ele”. 

“Os comandantes de unidades e até de batalhões e companhias conhecem nosso trabalho e nos respeitam muito, o que é gratificante. Significa que um trabalho sério e bem desenvolvido é levado em conta para uma decisão administrativa”

A observação acurada e sensível das profissionais que socorrem esses guerreiros é fundamental para dar um diagnóstico preciso e fundamentar a ação que solucione o problema rápido e a contento. “Quando um paciente, da capital ou do interior, chega até nós, fazemos um acolhimento e um completo levantamento de seu quadro profissional, social, econômico, familiar e até religioso para conhece-lo em profundidade”, comenta. Às vezes esse guerreiro está depressivo porque está trabalhando em um local que não lhe agrada mais, nesse sentido elas fazem uma intervenção no sentido de possibilitar sua remoção para outro local mais agradável. Já houve caso em que o próprio comandante-geral da corporação anuiu ao laudo elaborado pela assistente social e pela psicóloga para tomar decisões importantes. “Os comandantes de unidades e até de batalhões e companhias conhecem nosso trabalho e nos respeitam muito, o que é gratificante. Significa que um trabalho sério e bem desenvolvido é levado em conta para uma decisão administrativa”.

Há casos em que comandantes pedem laudo para essas fadas guerreiras solicitando uma consultoria para decidir. Um caso emblemático foi de um policial lotado no regimento de polícia montada que desenvolveu um quadro de alergia respiratória grave de tanto lidar com os cavalos. A assistência social do CRAP colheu um laudo médico comprovando isto, elaborou um minucioso relatório justificando a necessidade de remoção do policial e ele foi transferido para outra unidade. Mas, o trabalho não é só esse. A equipe multidisciplinar de assistente social e psicóloga já avalia a aptidão do policial para outra área e sugere para onde possa ser providenciada sua relotação. É solucionado um problema, um guerreiro é trazido ao seu equilíbrio, a Polícia Militar mantém um policial experiente e em plena atividade e a sociedade ganha com a manutenção de um militar agindo em sua defesa. 

Depressão

Um caso que ilustra bem os exemplos de sucesso na ação dessas profissionais que socorrem os guerreiros é o do subtenente Márcio Ely Machado Diniz. Esse policial experiente e dedicado sofreu um acidente durante uma ação há 10 cujas sequelas lhe provocaram um quadro depressivo grave que foi socorrido pelos anjos do CRAP. Mário Ely era lotado no Grupo de Intervenção Rápida Ostensiva (GIRO), um grupamento de policiais sobre potentes motocicletas que agem com urgência no combate à criminalidade. A rapidez no deslocamento e seu treinamento diferenciado para ações táticas são o diferencial na intervenção aos bandidos. Márcio Ely sofreu um acidente com a moto em abril de 2006 e fraturou o úmero, um osso que dá suporte ao braço e mobilidade perfeita ao membro.

Essas sequelas lhe deixaram com os movimentos comprometidos e a força necessária para pilotar a motocicleta novamente, carregando um fuzil calibre 762 e fazer ações mais ousadas como é necessário. Mesmo insistindo em manter-se em atividade não foi possível. Ele sofreu bullying de superiores e discriminação de colegas. “Entrei em parafuso quando vi que meus colegas já não me queriam em suas equipes porque eu estaria incapacitado”, lamenta. Com a esposa Niuslene Alves Ferreira de Oliveira e uma filha ainda criança para cuidar ele viu seu rendimento cair sensivelmente, o que aumentou a depressão. Antes ele ainda fazia alguns bicos e complementava a renda, mas com o quadro de dificuldade motora com o braço e a depressão nem isso ele consegue mais. Com 21 anos de Polícia Militar ele sente falta das ações táticas que fazia e luta para reagir psicologicamente e superar esse quadro depressivo. Márcio Ely ainda ficou quatro anos em serviços administrativos, mas o louco de um oficial despreparado o colocou de novo nas ruas, mesmo ele não tendo condições de pilotar e de atirar.

A ação da equipe multidisciplinar tem sido fundamental para a recuperação do subtenente, garante sua esposa. “Ele até voltou a rir mais”, comemora, lembrando que após o acidente o marido não teve mais uma vida normal. A sargento Nélia, assistente social, está incumbida de tentar junto ao comando da corporação e junto à Procuradoria do Estado providenciarem a aposentadoria. Como Márcio Ely outros casos se sucedem sob intervenção da assistência psicossocial da Assego.

Saúde

Há um outro ramo de atividade da Assego em parceria com a Fundação Tiradentes, uma instituição que presta assistência social para todos os policiais militares. O gerente de assistência social, coronel Campos explica que o Programa de Prevenção em Saúde e Qualidade de Vida (PPSQV) tem devolvido muita alegria para os policiais militares que passam por suas atividades. Todos os policiais, da capital e do interior, para serem promovidos precisam passar por cursos de reciclagem e aprimoramento profissional. As equipes da Assego e da Fundação Tiradentes entram em cena para promover reuniões com esses policiais para prevenir quadros depressivos e outras medidas profiláticas como exames preventivos de saúde como glicemia, aferição de pressão arterial e outras medidas de qualidade de vida.

“Buscamos parcerias como essa para atingirmos nossos objetivos de melhor assistir policiais militares, pensionistas e dependentes. Assistimos a todos os policiais, independente de patentes, atividade e dependência. Temos sob nosso cuidado cerca de 60.000 vidas, o que nos leva a firmarmos parcerias para atingir o máximo possível de beneficiados. Essa integração garante a ampliação do leque de ações para os policiais que precisamos cuidar”, observa o oficial. A meta é ousada e corajosa: todos os policiais militares, ativos ou inativos serão atendidos. Se alguém precisa vir do interior há o hotel de trânsito para abriga-lo. Basta marcar hora e buscar alívio para seus espíritos.

Socorro

A interação vai até outros nichos de atuação. A sargento Leidyana Pereira da Silva é advogada e diretora jurídica da Assego e afiança o quanto a atuação dos serviços integrados podem solucionar demandas com maior eficiência. Ela lembra que um policial que estava preso disciplinarmente foi assistido pelas profissionais do CRAP, que notaram sua visível alteração. Um relatório delas para a Justiça garantiu tratamento médico imediato, medicação que minimizou o problema e superação do quadro grave que acometia o paciente.

“O militar representa o Estado e sua força repressiva contra os desvios de conduta e contra o crime. Nosso papel é demonstrar que atrás desse militar fardado existe um ser humano que tem desejos, angústias, que tem problemas financeiros ou de saúde, que muitas vezes precisa ser a voz forte quando ele mesmo está abalado, muitas vezes precisa ser a resposta quando ele mesmo não essa resposta. Então precisamos humanizar o policial”, finaliza.

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