Juíza Placidina Pires: "Nossa sociedade mostra-se tolerante com a criminalidade"
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Placidina Pires
Em artigo exclusivo para o site www.falandoaverdade.com.br a juíza Placidina Pires, titular da 10ª Vara Criminal de Goiânia, tece considerações sobre a interação do fenômeno conhecido como “Síndrome de Estocolmo” e como ele se revela na sociedade contemporânea.
Conhecida por posições firmes contra a criminalidade e crítica veemente contra as Audiências de Custódia e o efeito nocivo que essa criação do Conselho Nacional de Justiça provocou, soltando criminosos presos em flagrante, descreditando policiais e aumentando a sensação de impunidade no Brasil. Magistrada de carreira brilhante no interior e na Capital, Placidina Pires é respeitada entre seus pares e temida por quem transgride a lei, porque sabem que a mão punidora do Judiciário será exemplar.
Confira a íntegra do Artigo:

Juíza Placidina Pires

A Síndrome de Estocolmo e seus reflexos na sociedade em geral
Placidina Pires
A nossa sociedade parece atingida, de um modo geral, pela síndrome de Estocolmo, estado psicológico apresentado por quem é exposto a algum tipo de intimidação prolongada, que passa a nutrir simpatia e até mesmo amor e amizade por seu agressor (Wikipédia), de modo que, em vez de repudiar o comportamento do algoz, busca justificar suas ações criminosas, opondo-se às ações policiais, com a finalidade de livrá-lo de punição.
O fenômeno foi cunhado pela primeira vez pelo criminologista e psiquiatra Nils Berejot, o qual auxiliou a polícia no famoso sequestro ocorrido em 1973 em Estocolmo, Suécia, precisamente no banco “Sveriges Kreditbank of Stockholm”, situado na praça Norrmalmstorg, no centro da capital sueca, e durou seis dias.
O sequestro teve início na manhã do dia 23 de agosto de 1973, quando o assaltante Jan-Erik Olsson (Janne) entrou encapuzado, armado com uma metralhadora e com explosivos no banco supracitado, gritando e atirando para o teto. Quatro pessoas foram feitas reféns (três mulheres e um homem).
O sequestrador exigiu como resgate significativa quantia em dinheiro, um carro com o tanque cheio e a presença no local de um dos criminosos mais famosos do país, que conheceu na prisão e fez amizade, Clark Olofsson, para participar do sequestro e fugir em sua companhia. As autoridades aceitaram as exigências, no entanto, não permitiram que os reféns saíssem do banco na companhia dos sequestradores.
Os policiais mantinham contato telefônico com os sequestradores por meio dos reféns, Olof Palme e Kristin Enmark, os quais, inacreditavelmente, já no segundo dia de sequestro, posicionaram-se a favor dos criminosos e contra os policiais.
Durante as conversas os sequestrados criticavam mais as atitudes da polícia do que as dos próprios criminosos. A refém Kristin Ehnmark teria dito, inclusive que: “Temos mais medo dos policiais do que desses meninos”.
Reféns e sequestradores estabeleceram laços afetivos que logo ficaram evidentes, conversavam e jogavam baralho, como se fossem velhos conhecidos de infância.
No sexto dia, após tentativas frustradas de resgate, a polícia soltou gás lacrimogêneo na abóbada, e, em poucos minutos, Olsson e Olofsson se renderam, sem deixar nenhum ferido. Os reféns se negaram a sair antes de seus sequestradores, com medo de que eles fossem castigados, e se despediram com abraços. Acreditavam que continuaram vivos graças aos criminosos.
Um dos reféns, após a libertação, chegou a criar um fundo para ajudar os sequestradores nas despesas judiciais que estes teriam, em consequência de seus atos.
Jan-Erik Olsson foi condenado a 10 anos de prisão e nunca mais voltou a ter problemas com a Justiça, ao passo que Clark Olofsson foi absolvido em segunda instância pelo crime ao alegar que não era parceiro do sequestrador, mas um refém, mas, ao longo de sua vida, foi várias vezes condenado por outros crimes na Suécia e também na Dinamarca.
Em que pese o criminologista e psiquiatra Nils Berejot tenha batizado o fenômeno de síndrome de Estocolmo naquela época, o termo somente ficou conhecido em 1975, quando a estudante universitária Patty Hearst, jovem milionária da mais alta sociedade de Nova York, foi sequestrada pelo Exército Simbiótico de Libertação (SLA, na sigla em inglês), no norte da Califórnia.
Meses após o sequestro, a vítima anunciou que havia se unido aos sequestradores. Houve rumores de que ela havia se envolvido amorosamente com o líder dos guerrilheiros.
Ela participou de assaltos e foi presa por agentes do FBI em São Francisco. A defesa da jovem alegou que Patty sofria da síndrome de Estocolmo, mas a tese não funcionou e a jovem foi condenada a 07 (sete) anos de prisão.
Nessa mesma linha, há também o caso da jovem austríaca Natascha Kampusch, que desapareceu em 1998, a caminho da escola, aos 10 anos de idade, na Áustria, e foi mantida em cativeiro, em um porão de cerca de 5 m2, durante 08 (oito) anos, local em que sofreu toda ordem de agressões físicas, psicológicas e sexuais.
Natascha reapareceu em 2006, com 18 anos, em um jardim de Viena após escapar da casa de seu sequestrador, quando este estava distraído. O sequestrador se matou, atirando-se na frente de um trem ao norte da cidade de Viena, oito horas após a fuga da jovem.
Pouco depois, em uma declaração dada à mídia, a jovem repreendeu os repórteres quando se referiram ao sequestrador como um “monstro sexual”, dizendo que ele perturbado mentalmente e que sentiu pela sua morte trágica.
Em outra entrevista, declarou que viu pontos positivos no sequestro, porque não se envolveu com bebidas, cigarros e más companhias. Segundo a maioria dos especialistas, Kampusch aparentemente adquiriu a síndrome.
Esse estado psicológico é retratado em vários livros e filmes, como, por exemplo, no filme da Disney “A Bela e a Fera”, e na série da Netflix “La Casa de Papel”.
Você, com certeza, durante a leitura desse texto imaginou inúmeras outras situações em que a vítima, inexplicavelmente, passou a defender seu agressor, inclusive fornecendo informações inverídicas e não correspondentes com a realidade às autoridades, com o fito de protegê-lo e cativar sua simpatia.
Situações como essa, aliás, são verificadas, cotidianamente, em nossa sociedade, que, mesmo exposta há anos e anos a fio a sérios atos de intimidação e violência, mostra-se tolerante com a criminalidade, saindo não raro em defesa dos agressores, apregoando o laxismo penal e o desencarceramento em massa, com a adoção de entendimentos e interpretações que somente beneficiam o réu, na maioria das vezes, fundamentando-se em premissas falsas e distorcidas da realidade.
Exemplos clássicos são a criação, sem lei, das Audiências de Custódia; a demonização das polícias promovida pela mídia e alguns segmentos sociais, a flexibilização da Lei de Crimes Hediondos com a abolição pelo STF do regime integralmente fechado, bem como a adoção de entendimentos que buscam, consciente ou inconscientemente, dificultar, senão anular os procedimentos investigatórios com base em filigranas jurídicas.
Cito a decisão da Suprema Corte que anulou as provas obtidas por meio de escuta telefônica no caso do ex-Senador Demóstenes, sob o fundamento de houve demora na comunicação do fato ao Supremo Tribunal Federal.
São decisões aplaudidas como avanços civilizatórios, mas que pregam a obediência a uma ordem constitucional particularmente especial, que, lamentavelmente, não contempla os direitos das vítimas, entrementes, estas, entorpecidas pela síndrome de Estocolmo, mesmo assim, acreditam estar protegidas.
Fontes Bibliográficas:
Concursos Públicos: terminologias e teorias inusitadas/João Biffe Junior, Joaquim Leitão Junior. -Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2017;
https://exame.abril.com.br/tecnologia/crime-que-originou-sindrome-de-estocolmo-completa-40-;
http://brasilescola.uol.com.br/doencas/sindrome-estocolmo.htm; https://www.infoescola.com.doenca/sindrome-de-estocolmo e;
https://www.megacurioso.com.br/medicina-e-psicologia/100469-a-historia-bizarra-que-deu-origem-
a-sindrome-de-estocolmo.htm

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