Casas de Apoio / Foto: Cristovão Matos
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Os habitantes de Goiânia poderiam ter um sistema de saúde comparável aos melhores hospitais do País, como Sírio e Libanês e Hospital Albert Einstein se os recursos que a Secretaria Municipal recebe todo mês fossem usados para tratar dos goianienses. A situação seria ainda excelente se os demais municípios de Goiás e de outros Estados respeitassem as regras do Sistema Único de Saúde (SUS) e cumprissem a pactuação entre entes federados para tratamento de saúde de seus munícipes.

Goiânia tem uma população estimada em 1,5 milhão de habitantes e quase 6 milhões de usuários do sistema de saúde pública. Tudo por conta das especialidades médicas, da medicina avançada e da facilidade para driblar a fiscalização do SUS e receber atendimento, mesmo sem ser habitante da capital. Essa disparidade compete para tornar postos de saúde abarrotados de moradores de Goiânia em busca de consultas e exames e os serviços de alta complexidade em situação desesperadora para que os pacientes consigam vagas em internação, exames de alto custo e cirurgias caras cada dia mais distantes para os goianienses. Competindo com eles estão pessoas que vivem e trabalham em outros municípios de Goiás e de outros estados. Goiás tem 245 municípios, além de Goiânia. Enquanto isto a capital atende pacientes de 600 outras cidades, principalmente da Bahia, Maranhão, Tocantins, Piauí, Pará e Mato Grosso.

Para ter uma amostra crua e simplória do volume de pessoas que acorrem a Goiânia em busca de tratamento médico basta dar uma passada pelas quase 50 casas de apoio instaladas na capital, sem contar com outras clandestinas que são entulhadas de doentes de outros lugares. Algumas cidades de Goiás mantêm suas casas em Goiânia para abrigar seus munícipes que acorrem à capital em busca de tratamento. O serviço é louvável e humanitário, apesar de inevitavelmente servir de plataforma político-eleitoral. Tanto que um prefeito já foi eleito em sua cidade após ter sido gerente de uma casa dessas: trata-se e Edson da Casa de Apoio, que foi prefeito de Paraúna.

Há ilhas de excelência e de responsabilidade para com a coisa pública, como é o caso da Casa de Apoio de Mineiros, instalada no Setor Universitário. Há alojamentos limpos e organizados para os usuários e são servidas três refeições por dia para quem necessita, incluindo café da manhã, almoço e jantar. Em média são 100 visitantes desses que se servem no refeitório da Casa de Mineiros todos os dias. A gerência não aceita que pacientes venham sem estar incluídos na regulação e consultas e exames são agendados ainda na cidade de origem.

Fraudes

Entretanto, há aberrações de todo tipo e as tentativas de fraudes ao sistema de saúde pública de Goiânia se multiplicam com rapidez impressionante. O que mais gostam de fazer é se valer de um comprovante de residência de Goiânia, conseguido com um morador da capital qualquer, para fazer o cartão do SUS e ser atendido como se fosse um legítimo goianiense. De posse desse cartão os usuários consultam, fazem exames e se submetem até a cirurgias. O sistema é universal, como destacam os entendidos do Sistema de Saúde, mas o correto é que cada município desse a atenção básica e casos de média e alta complexidade fossem encaminhados via regulação, com inclusão de pacientes no sistema para consultas com especialistas e exames de alta complexidade.

Funciona assim: um paciente lá no interior do Mato Grosso ou da Bahia necessita de uma consulta com oftalmologista ou oncologista. O médico da atenção básica de lá acessaria o sistema via internet e marcaria a consulta para esse paciente. Ele viria para Goiânia na data agendada e seria atendido, sem qualquer problema. Em tese a coisa é até bonita. Mas, na prática é um pandemônio dos infernos os pacientes chegando em bandos desesperados por uma consulta, mentindo como se fossem de Goiânia, buscando o Ministério Público para serem atendidos com urgência e a opinião pública culpando a Secretaria de Saúde de Goiânia pelo caos no sistema de saúde.

Uma casa particular instalada no Setor Coimbra, em Goiânia, chamada Casa de Apoio São Daniel atende moradores principalmente de Santa Rita do Araguaia, em Goiás e Alto Araguaia, no Mato Grosso. Pacientes que usam a estrutura da casa contam que os proprietários, chamados Grego e Clóvis, costumam se valer de comprovantes de endereço de Goiânia para fazer cartão do SUS para eles. Um desses pacientes, vindo do Mato Grosso, contou que pagou uma parte de seu tratamento de câncer particular e grande parte fez pelo SUS com cartão conseguido dessa forma.

Clóvis confirmou para a reportagem que uma vez ou outra se vale desse expediente para não ser enquadrado em “omissão de socorro”. Os pacientes de Alto Araguaia contam que preferem vir para Goiânia, distante 513 quilômetros do que ir para Cuiabá, capital do seu estado e que fica até mais perto: 417 quilômetros. Tudo por conta da fama da capital goiana de bons médicos e medicina avançada. “Em Cuiabá você chega andando e sai em um caixão. Deus me livre de ir para lá”, conta um paciente.

Na Casa de Apoio Pró-Saúde, no Setor Oeste, os proprietários Eliseu e Bentinho contam que já atenderam até 16 prefeituras, participando de licitação e mantendo contratos legais. Cada prefeitura paga em média R$ 55,00 de diária por paciente para hospedagem, café da manhã, almoço e jantar, além de transporte para hospitais e clínicas. “Não aceitamos pacientes irregulares e não damos comprovante de endereço para fraudar cartão do SUS”, assevera Bentinho.

Desespero

No Cais do Setor Campinas a realidade é cruel e sem adereços. Pacientes são trazidos também do Mato Grosso, oriundos de municípios como Confresa, Água Boa e Querência e jogados no Cais em busca de tratamentos complexos como hemodiálise. As enfermeiras já chegaram a ameaçar chamar o Ministério Público para comprovar a ilegalidade e o desplante do pessoal de Água Boa, principalmente. “Chegam aqui, despejam os doentes e saem correndo”, narra uma funcionária. O pior é que eles pagam até R$ 250,00 para os coiotes que fazem o transporte deles de Mato Grosso até Goiânia.

A reportagem encontrou o agricultor Cláudio Mendes, morador de Confresa, Mato Grosso. Ele contou que seu pai tem diabetes grave e uma ferida chamada úlcera varicosa no pé. O médico da cidade recomendou a ele que trouxesse o pai para Goiânia para conseguir tratamento, mas não fez a pactuação com o sistema nem o orientou sobre a forma legal. O pobre homem sofria em uma maca no Cais aguardando ser colocado na regulação e ser encaminhado para um hospital para tratamento adequado.

Cláudio Mendes, morador de Confresa, Mato Grosso

No mesmo Cais uma mulher lamentava a sorte da mãe, paciente com câncer no ovário que atacou os rins e a obrigam a fazer hemodiálise. Lucilene Araújo da Silva veio com a mãe de Santa Helena de Goiás para o Hospital Araújo Jorge sem passar pela regulação e sem encaminhamento da Secretaria Municipal de Saúde do Município. O cartão do SUS da mulher é de seu município de origem, ela não está na regulação, mas mesmo assim foi atendida. As enfermeiras são anjos bons que se apiedam das dores dos pacientes abandonados e socorrem os flagelos que os atormentam.

Na emergência do Cais Campinas a reportagem encontrou o eletricista Almir Acácio Rodrigues Júnior, que está desempregado e vende balas de gengibre para sobreviver. Ele é morador de Trindade, estava com inflamação no ouvido há três dias e buscava atendimento. Contou que procurou uma unidade de saúde de Trindade, mas a fila estava muito maior, o que o obrigou a vir para Goiânia.

Almir Acácio Rodrigues Júnior, de Trindade – GO.
Socorro

No Setor Aeroporto há outra das famosas casas de apoio. Chamada Amass, essa casa é dirigida pela proprietária Maria da Conceição Coelho Araújo, que mantém contrato com algumas prefeituras de Goiás e do Mato Grosso. Ela não se incomoda em dizer que algumas vezes lança mão do expediente de usar comprovante de endereço de Goiânia para fazer cartão do SUS para pessoas vindas de outro estado. “Se eu não fizer isso posso ser acusada de omissão de socorro”, justifica.

A reportagem ouviu Célia Genuína Cardoso Fonseca, que vivem em Nova Nazaré, no Mato Grosso e veio para Goiânia para tratar um câncer de ovário. Ela conta que o próprio prefeito da cidade recomendou a ela que viesse para a capital de Goiás em busca de tratamento porque em Cuiabá ela iria morrer. Esse alcaide também não orientou a munícipe a fazer a coisa correta, nem se prontificou a pactuar com Goiânia o tratamento.

Célia Genuína Cardoso Fonsenca, paciente, de Nova Nazaré – MT

Goiânia recebe em média R$ 35 milhões por mês do Ministério da Saúde para o sistema. Esse montante soma ao ano a montanha de dinheiro da ordem de R$ 420 milhões. Quantia suficiente para tratar de forma ordenada todos os pacientes que necessitem. B

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