Poetisa Cecília Meireles é autora de alguns dos mais belos versos da língua portuguesa

Por Hélmiton Prateado

Professores, literatos e leitores do Falando a Verdade opinaram sobre os melhores poemas de Celícia Meireles e o que consideram mais notável em sua imortal obra. A poesia de Cecília Meireles transcende ao tempo e agrada a alma de leitores mesmo depois de meio século de escrita. Sua carreira enalteceu o espírito sofrido e vivífico de quem sempre amou a vida e comprova que “tem sangue eterno a alma ritmada”, como ela mesma escreveu em suas linhas.
Autora de peças imortais como Marcha, Retrato, Lua Adversa e Motivo a escritora carioca mostrou desde cedo o pendor para os versos e a literatura. Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 7 de janeiro de 1901. Era filha de um funcionário do Banco do Brasil e de uma professora primária. Sua mãe morreu quando Cecília ainda tinha três anos e a menina foi viver com a avó materna, uma portuguesa nascida na Ilha dos Açores, que era a única sobrevivente da família.
Estudou na Escola Municipal Estácio de Sá que tinha como inspetor nada menos que o poeta Olavo Bilac, de quem recebeu uma medalha pelo “esforço e excelente desempenho”. Com amor pelos livros e paixão pela leitura desde a mais tenra idade a menina Cecília já treinava versos, tocava piano e violino e cantava. Seus belos olhos azuis-esverdeados eram namorados à distância mesmo que sua avó não a deixasse sair de casa. Formou-se aos 16 anos na Escola Normal do Rio de Janeiro e teve como professores expressões da literatura brasileira como o poeta Osório Duque-Estrada, autor da letra do Hino Nacional Brasileiro.
Em 1922 casou-se com o artista plástico português Fernando Correia Dias, com quem teve três filhas: Maria Elvira, Maria Mathilde e Maria Fernanda. Escreveu obras literárias infantis mas destacou-se mesmo pela poesia, onde viajava pelos ermos caminhos da alma. Aqui vão cinco de seus melhores poemas, segundo leitores.

Marcha
As ordens da madrugada
romperam por sobre os montes:
nosso caminho se alarga
sem campos verdes nem fontes.
Apenas o sol redondo
e alguma esmola de vento
quebraram as formas do sono
com a idéia do movimento.

Vamos a passo e de longe;
entre nós dois anda o mundo,
com alguns vivos pela tona,
com alguns mortos pelo fundo.
As aves trazem mentiras
de países sem sofrimento.
Por mais que alargue as pupilas,
mais minha dúvida aumento.

Também não pretendo nada
senão ir andando à toa,
como um número que se arma
e em seguida se esboroa,
— e cair no mesmo poço
de inércia e de esquecimento,
onde o fim do tempo soma
pedras, águas, pensamento.

Gosto da minha palavra
pelo sabor que lhe deste:
mesmo quando é linda, amarga
como qualquer fruto agreste.
Mesmo assim amarga,
é tudo que tenho,
entre o sol e o vento:
meu vestido, minha musica,
meu sonho, meu alimento.

Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudades;
tenho visto muita coisa,
menos a felicidade.
Soltam-se os meus dedos tristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino
já me dá contentamento.

Como tudo sempre acaba,
oxalá seja bem cedo!
A esperança que falava
tem lábios brancos de medo.
O horizonte corta a vida
isento de tudo, isento…
Não há lagrima nem grito:
apenas consentimento.

Motivo
Eu canto, porque o instante existe
E a minha vida está completa
Não sou alegre nem sou triste, sou poeta
Não sou alegre nem sou triste, sou poeta
Irmão das coisas fugidias
Não sinto gozo nem tormento
Atravesso noites e dias no vento
Se desmorono ou se edifico
Se permaneço ou me desfaço
Não sei se fico ou passo
Eu sei que eu canto e a canção é tudo
Tem sangue eterno a asa ritmada
E um dia eu sei que estarei mudo, mais nada

Canção de Outuno
Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o própro coração?
E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando áqueles
que não se levantarão…
Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
– a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão…

Epigrama nº 2
És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa:
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
Porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo despovoado e profundo, persiste.
Canção

Nunca eu tivera querido
dizer palavra tão louca:
bateu-me o vento na boca,
e depois no teu ouvido.
Levou somente palavra,
deixou ficar o sentido.

O sentido está guardado
no rosto com que te miro,
neste perdido suspiro
que te segue alucinado,
no meu sorriso suspenso
como um beijo malogrado.

Nunca ninguém viu ninguém
que o amor pusesse tão triste.
Essa tristeza não viste,
e eu sei que ela se vê bem…
Só se aquele mesmo vento
fechou os teus olhos também…

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