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Hélmiton Prateado

Da Editoria de Política & Justiça

Um programa de interação entre moradores de bairros de Goiânia e a Polícia Militar é o responsável pela redução considerável das ocorrências de crimes e pela harmonia entre a população e os policiais. O Projeto Vizinhança Solidária é a vedete dessa forma de aproximação da sociedade com a força policial e deu tanto certo que produziu um fruto ainda mais exemplar: o Projeto Comércio Seguro.

Na Região Oeste essa interação é um exemplo pronto e acabado que serve de modelo para outros bairros em Goiânia e que está sendo levado para o interior. Uma das zonas urbanas que mais cresce, principalmente por estar longe de outros centros urbanos, como Abadia de Goiás e Trindade, carente de serviços públicos e concentrando uma enormidade de problemas, o lado Oeste da capital inchou e as autoridades não conseguiram fazer o progresso administrativo chegar com a mesma rapidez. No quesito segurança pública a solução foi a população se unir e colocar a criatividade aliada à solidariedade para solucionar as demandas.

A aposentada Aparecida Borges de Lima Matos é um exemplo do engajamento dos cidadãos para fazer acontecer quando o Estado é ausente. Pouquíssimas pessoas a conhecem pelo nome, por isso é preciso sempre se referir a ela pelo apelido: Dona Rosa. E a Dona Rosa é conhecida, respeitada pelas autoridades e temida pela bandidagem. Até porque os malandros que davam trabalho por lá foram tão incomodados pela turma de Dona Rosa que meteram a viola no saco e foram cantar em outra freguesia.

“Nós descobrimos que unindo nossas forças para vigiar nossas ruas e bairros de forma organizada e sistemática o serviço da polícia seria muito melhor aproveitado”, conta ela. A ação é simples: se alguém vê um carro diferente rondando as casas é o alerta mandando os dados e até uma foto do veículo e dos ocupantes para a viatura mais próxima. Todos têm os telefones dessas viaturas, então rapidamente os policiais levantam o histórico do veículo e se for preciso abordam os forasteiros e efetuam as prisões. Quase sempre a ação resulta em um grupo retirado de circulação. A fama dos vigilantes solidários da vizinhança correu entre os bandidos e todos sabem que é melhor não ficarem dando sopa por lá.

Amizade

A Região Oeste é território da 15ª Companhia Independente da Polícia Militar, comandada por um oficial jovem e uma das estrelas mais respeitadas na corporação. Capitão Euler Filho é especialista em inteligência policial – é instrutor de inteligência – e altamente operacional, não se limitando a ficar na unidade: ele mesmo entra na viatura e parte para a ação de forma dedicada para prender bandidos e dar segurança para a população.

“Esse programa de interação entre os moradores e a polícia tem inúmeras vantagens, mas devemos ressaltar o fato de diminuir a distância e o bloqueio entre cidadãos e policiais, potencializar os efeitos de nosso trabalho e reduzir as estatísticas de forma segura e permanente”, explica o atento comandante. Quando o capitão Euler foi designado pelo Comando do Policiamento da Capital para gerir a 15ª CIPM disseram que eram 100 bairros, quando ele assumiu o posto esse número subiu para 130, mas quando ele fez o levantamento correto descobriu que se tratava de uma extensão com 142 bairros.

A aproximação entre os policiais e moradores é uma realidade que encanta quem vê. Os policiais são parados nas ruas e convidados a entrar nas casas para um café e frequentemente são chamados para o almoço na residência de algum morador que se tornou amigo. Todos vêm nos policiais amigos e companheiros, não mais sobrevive o ranço de temor dos homens fardados que eram vistos como a personificação da truculência, arrogância e violência que impunham o medo e a distância.

O conselheiro tutelar da Criança e do Adolescente Luiz Gomes é um dos líderes comunitários que mais defende a manutenção e expansão do Projeto Vizinhança Solidária. “Começamos com poucas famílias e hoje somos mais de 1.000 pessoas integradas a essa iniciativa. Os resultados estão aí para todos conferirem: redução dos casos de roubos, furtos e assaltos, população satisfeita com a polícia e bandidos que temem a população e a polícia”, explica. Luiz mostra as placas afixadas nas portas das casas que identificam onde estão os voluntários inseridos no processo de vigilância solidária e isso serve como um alerta para bandidos saberem que aquela região não é um bom local para eles se aventurarem a roubar ou praticar outras maldades.

Cultura

O odontólogo Netanias Tomaz, membro do 60º Conselho de Segurança Comunitária, faz uma avaliação mais acadêmica do significado do Projeto Vizinhança Solidária. “Isso é uma mudança de paradigmas em que a população fica apenas esperando a ação das autoridades. Passamos a ter uma atuação mais proativa e partimos para a atividade de vigilância direta, deixando para a polícia a ação tática de abordar e prender. Então nós somos os olhos e ouvidos da polícia e ela a mão forte que prende e reprime o crime em nosso meio”.

O comerciante Nestor Soares da Silva também faz coro ao que seus companheiros de vigilância solidária entoam mostrando que isso é uma mudança de cultura. “Somos do mesmo objetivo de viver em paz e segurança. Descobrimos que nos unindo temos condições de vencer as dificuldades e garantir segurança para nossas casas e nossas ruas.  Isso está consolidado e dá a certeza de que estamos no caminho certo”.

“Se todos nos unirmos nossos bairros e nossas ruas serão lugares ruins para a bandidagem circular confiando na impunidade”, comenta o empresário do ramo de confecções Ivan Barão. Ele é um dos entusiastas da Vizinhança Solidária e do Comércio Seguro. “Isso é consciência de cidadania. Nós fazemos a nossa parte e nossos olhos são a fiscalização plena para o Estado fazer a sua parte”, finaliza.

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